sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Se acabar pra quê?

Na porta do banco eu ouvia o ânimo do casal à frente. O carnaval tá aí, vou me acabar na avenida, dizia  ela com um sorriso de orelha a orelha, que mexeu com os demais. Se acabar na avenida virou frase feita das últimas décadas. Serve tanto para quem, embriagado, atravessa avenida sem tomar os devidos cuidados, quanto para alguém que, sóbrio, se põe em pé num salto alto de uns 15 centímetros (no mínimo) e se arrisca a sambar e berrar uma letra-melodia por hora e meia sob sol ou chuva para, após a imprudência, torcer para que sua agremiação seja declarada a melhor de todas.

E a mulher, entusiasmada que só ela naquela fila, disparava aos mil cantos o quanto gostava de todo aquele espetáculo. Adoro, frisava bem, vestir meu salto alto, minha mini fantasia e sentir o samba sacudir o corpo. O namorado-marido, um marmanjo barbudo de mais de um e oitenta, sorria orgulhoso da companheira, embora não abrisse a boca para se pronunciar.

O velhinho encostado na pilastra próxima à fila, perguntou animado como fazia pra sair na referida escola. Tô véio, mas ainda tenho samba no pé, afirmou categórico à moça, que riu um deboche meio sem querer. Ô vovô, não te mete não que isso é pra gente que sabe, estreou o brutamonte ao lado da moça.

Pois saiba que no meu tempo o carnaval se escrevia com letra maiúscula, sabe por quê? Perguntou o velhinho, arriscando um meio passo torto. Porque foi muito antes da reforma ortográfica, vovô! Respondeu a moça, repetindo o passo tentado pelo velho e sendo seguida pelos aplausos acalourados do acompanhante.

Não. Carnaval era com maiúscula porque era a mais legítima manifestação da cultura brasileira, uma cultura que teve origem a partir da mistura de diversas etnias, dentre elas a africana. E por ser esta a maior manifestação cultural brasileira, escrevíamos o Carnaval de forma tão respeitosa quanto o Natal. Mas hoje, o duplo sentido e o erotismo exacerbado contaminou de tal modo essa manifestação que o carnaval já não se faz mais digno, servindo apenas para se acabar em saltos altos e em nudezes. É pena que a alegria de que tanto se fala na TV, que também mostra o carnaval de forma viciada e atendendo a interesses econômicos e mesquinhos, não seja mais aquela de antes da reforma ortográfica, a qual fazia brotar o riso sem que lágrima alguma se fizesse necessária ou que se precisasse acabar-se numa avenida.

O público aplaudiu. A moça se entristeceu. O rapaz abaixou a cabeça. E o velhinho lamentou estar certo.

Engraçado é perceber que os risos, sorrisos e fantasias já não são acompanhadas por alegria descompromissada, mas de termos que indicam o fim, como "se acabar na avenida" ou "sambar até o dia clarear" ou mesmo "dar o sangue por esta ou aquela agremiação". A pergunta que fica é: "pra quê?"

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Baste-se!

Engraçado como as horas passam, os dias voam e, às vezes, só às vezes, você se sente limitado, cansado de não fazer nada, de não ter novidade, de não saber para onde correr ou se o melhor que tem a fazer é correr.
Minha vida não se traduz em uma aventura quase inédita, daquelas que se vê nos filmes e nas redes sociais, uma alegria tamanha que beira a falsidade e resvala na tristeza. Não, minha vida, na maior parte dos meus dias, não tem graça nenhuma. Vivo como um qualquer. Sem grandes beijos de amor, sem surpresas agradáveis, sem boas notícias profissionais, sem novas jornadas a começar, ou grandes tropeços a superar.
Será que para se sentir feliz, hoje, todos temos que nos sentir únicos? O que eu vejo são só sorrisos e congratulações uns com outros na vontade insana de se sentirem inseridos num grupo que os ama. E a espiral do silêncio dá a tônica nessa questão. Aprendemos a falar aquilo que os outros querem ouvir e a nos calar quando o silêncio é a preferência da maioria. Só para ficarmos juntos. Mas... numa imensa contradição, busca-se o ineditismo imitando a quem se sobressai, mesmo que por milímetros, na esperança de alcançarmos uma individualidade perdida.
Sabemos que somos sós e que sós temos a capacidade de sermos felizes, mas é tão difícil não desejar ser admirado... Talvez a felicidade esteja aí: não esperar nada de ninguém e saber viver nossa vidinha comum e medíocre, como se esta fosse, como realmente é, uma grande oportunidade de aprendermos a nos bastar como seres humanos.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Grite

Você já se libertou hoje?
Já encheu o pulmão de ar para gritar suas angústias?
Gritar quem você é?
Gritar o que você é?
Ou gostaria de ser?

É claro que não.
Não temos coragem para nos assumirmos.
Para fazer o que quisermos.
Para sermos ridículos.
Para sermos em nossa amplitude.
Seres egocêntricos de vaidade aflorada.
E devaneios realistas.

Fácil forjar a realidade.
Todo mundo hoje está feliz!
Como nunca antes das redes sociais.
Redes... sociais?
Num mundo tão antissocial?
Emprestamos uma xícara de açúcar por e-mail.
E a devolvemos por span.
E cremos sermos sociáveis.
Somos mega felizes...
Embora não saibamos mais o que é a tristeza!

Aproveite as lágrimas que escorrem do seu rosto.
E seja feliz por ser quem você é!

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Passando

E depois da chuva? O que veio foi a boca úmida, que balbuciava o amor em respingos saudosistas.
Apesar do olhar entre os fios molhados e despenteados que ornavam a testa pálida de saudade, mantinha a vida quente dentro da alma.
Uma saudade amortecida pelos anos, pelo tempo corroído de lembranças infundadas e estéreis.
Ah, minha menina! Há quanto tempo não te via? Está diferente, mais moça, mais velha, mais... diferente. Os olhos já não me encantam, mas as lembranças... essas sim são cruéis.
E nesses descompasso, de vaidade cerrada por um clichê de não mais querer saber, ou um simples dar de ombros, senti a chuva, seu frio, suas gotas. Não sei onde se esconde o sol. Talvez por ele se esconder com afinco de mim. Mas hoje o que mais me importa é sentir a chuva como minhas já inexistentes lágrimas pelo que não se passou, e pelo que se passa num eterno passando.

domingo, 28 de outubro de 2012

As reticências da minha vida








O sempre e o nunca me incomodam...
As reticências é que me aliviam... sem ponto final...
Os porquês são bons, sobretudo quando separados...
São, digamos, temperos que devem ser equilibrados para acertar o tom.
Mas o talvez... o talvez é a pimenta que fustiga, que comicha...
E quase ressuscita...
Vai... diga que a certeza me irrita...
Diga que meu peito tá cheio de interrogações...
E eu apareço um belo dia pra te desejar um encosto de cabeça...
É que a vida, com seus advérbios monótonos, me incomoda.
Mas as reticências... as reticências...
Essas são parentes ou parênteses do talvez?
Eu não quero achar nada...
Quero é preencher as reticências da minha vida...
Como se preenchê-las fosse possível...
E na possibilidade houvesse ainda mais reticências...

domingo, 14 de outubro de 2012

Liberdade


Liberdade

Perceber aquilo que se tem de bom no viver é um dom
Daqui não
Eu vivo a vida na ilusão
Entre o chão e os ares
Vou sonhando em outros ares, vou
Fingindo ser o que eu já sou
Fingindo ser o que eu já sou
Mesmo sem me libertar eu vou

É Deus, parece que vai ser nós dois até o final
Eu vou ver o jogo se realizar de um lugar seguro

De que vale ser aqui
De que vale ser aqui
Onde a vida é de sonhar?
Liberdade

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Sonhando...

Sensação indescritível é a de sonhar com alguém que se gosta. A noite inteira. E acordar com saudades. Conceitua a psicologia, dentre outras teorias, que o sonho é a miscelânea que o cérebro nos proporciona de sensações, experiências e desejos, para nos suprir a carência. Eu fico apenas com o fato de sonhar, que por si só é compensador. Voltar a ver quem se quer bem ou quem se quis bem, falar e fazer o que outrora não se permitiu ousar é maravilhoso.
Sonho, a bem da verdade, pelo menos umas três vezes por semana. E após todos eles, o que fica é sempre a saudade. Talvez esteja aí a razão de tanto sonhá-los: revivê-los de forma intensa e única, a cada vez que tenho a oportunidade. E no abrir de olhos, a esperança de ter sido mais que um sonho, uma premonição, talvez uma ponte com o outro lado... eis nossos desejos mortais de imortalidade... eis a realidade emergindo com o despertador!

domingo, 5 de agosto de 2012

E: aditivo de sensações

E as aulas voltaram. E o sacrifício por boas notas também. E o acordar cedo e dormir tarde. E a estranha vontade de desistir e persistir. E os longos degraus da porta da faculdade. E os dias de preocupação com as provas que chegam. E a escassez de tempo para qualquer outra coisa que não a rotina. E os amigos clamando por ajuda. E a impossibilidade de poder se ajudar, quanto mais os amigos. E a esperança de que tudo dê certo no final das contas, ou melhor, no final do semestre. E a auto-promessa de lutar só mais um round, como Rocky Balboa, antes de jogar a toalha. E a mudança de planos no caminhar das férias. E o desejo de saber mais e mais. E o conforto da conversa com os amigos na cantina. E a vontade de chegar até o fim junto deles, pegar o canudo e arremassar o mais alto que conseguir o capelo. E o que virá a seguir?

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Idealista

Às vezes me pego pensando em tudo o que sonhei para mim. Tantas coisas eu queria ser... queria ter sido... mas a vida me levou para outros lados. Uma ironia, especialmente para mim, que sempre planejei passos, conquistas. Acabei decepcionado com tantos sonhos que não passaram da minha cabeça. É pena ter que abrir mão do que um dia se sonhou, dói no fundo do ego, um ego que fica machucado e que tem medo de voltar a se inflar como antes. Uma amiga, certa vez, me falou que o segredo é saber conviver com as perdas. Na ocasião, a filosofia tinha ar de sentimentos, de paixões perdidas, de sonhos desfeitos, diferentemente de hoje, que utilizo a frase para me convencer a viver com o que conquistei, com o indesejado, implanejado e aí tenho que dar toda razão para essa amiga... é realmente um segredo saber aceitar a realidade. É tão mais fácil reclamar do que não se conseguiu... pôr a culpa nisso ou naquilo, em pessoas, situações... é irresistível procurar um culpado, mesmo que esse culpado seja você.
Difícil mesmo é aceitar que não há culpados, muito menos sinas, destinos, planos de Deus para cada ser. Todo resultado tem uma causa, um porquê, o erro está em acreditar em causas sobrenaturais. Estamos vivos e dispostos como peças de xadrez, à mercê de infinitas jogadas, combinações, num jogo quase impossível de se prever onde um movimento seu hoje vai te levar daqui a algumas dezenas de outros. Somos incapazes de prever a vitória ou a derrota a partir de uma jogada. Esse é o jogo da vida, caprichosamente criado pela força maior, Deus. Vitórias e derrotas fazem parte do tabuleiro e precisam ser encaradas como se igual fossem, e acho que até somos capazes disso, mas o que ainda não aprendi, é ser feliz com o não planejado, seja ele a vitória ou a derrota.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

No meio do caminho...

No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma paixão
tinha uma paixão no meio do caminho
tinha uma paixão
no meio do caminho tinha uma paixão.

Nunca me esquecerei dessa paixão
na vida de minhas retinas tão entusiasmadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma paixão
tinha uma paixão no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma paixão
que não resistiu
e que sucumbiu diante de um verdadeiro amor.

[Paráfrase do poema "No meio do caminho" de Carlos Drummond de Andrade]